terça-feira, junho 06, 2006
Juan José Arreola
LIBERDADE

"Acabo de proclamar a independência dos meus atos. À cerimônia compareceram apenas alguns desejos insatisfeitos, duas ou três atitudes condenáveis. Um propósito nobilitante, que prometera aparecer, enviou à última hora sua escusa humilde. A cena transcorreu num silêncio pavoroso. Creio que o erro esteve na proclamação ruidosa: trombetas e sinos, foguetes e tambores. E, para culminar, uma engenhosa queima de moral pirotécnica, que não chegou a arder de todo. No final das contas, achei-me sozinho comigo mesmo. Despojado de todos os atributos de caudilho, os confins da noite me encontraram empenhado na simples tarefa de escritório. Com os últimos restos de heroísmo, atirei-me à penosa incumbência de redigir os artigos de uma extensa constituição, que amanhã submeterei à assembléia-geral. O trabalho divertiu-me um pouco, apagando do meu espírito a triste impressão do fracasso. Leves e insidiosos pensamentos de rebeldia voam como mariposas noturnas em volta da lâmpada, enquanto sobre os escombros de minha prosa jurídica passa, de quando em vez, um tênue sopro da marselhesa."

Juan José Arreola (1918-2001), um autor mexicano que acabo de descobrir aqui, tem diversos textos disponíveis online. Vale a pena visitar e conhecer.
posted by George Cassiel @ 10:07 da manhã  
1 Comments:
  • At 12:56 da tarde, Blogger sub rosa said…

    Perdoe-me pelo atraso em vir agradecer a citação e o link
    De facto, já eu estivera aqui antes, mas perdi-me a ler as demais coisas, a ver e a ler os posts
    Muito obrigada.
    Meg

     
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"Este era un cuco que traballou durante trinta anos nun reloxo. Cando lle chegou a hora da xubilación, o cuco regresou ao bosque de onde partira. Farto de cantar as horas, as medias e os cuartos, no bosque unicamente cantaba unha vez ao ano: a primavera en punto." Carlos López, Minimaladas (Premio Merlín 2007)

«Dedico estas histórias aos camponeses que não abandonaram a terra, para encher os nossos olhos de flores na primavera» Tonino Guerra, Livro das Igrejas Abandonadas

 
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