quarta-feira, março 30, 2005
"Centenaire de Sartre en 2005" - II
Sartre (2)
por Eduardo Prado Coelho, Público de 30 de Março:

Gilles Deleuze escreveu nos seus "Dialogues" com Claire Parnet: "Na Libertação permanecíamos bizarramente apanhados na história da filosofia. Simplesmente entrava-se através de Hegel, de Husserl e de Heidegger. Precipitávamo-nos como cães enraivecidos numa escolástica pior do que a da Idade Média. Felizmente havia Sartre. Sartre era o nosso Exterior, era verdadeiramente a corrente de ar do pátio (e era pouco importante saber precisamente quais eram as suas relações com Heidegger do ponto de vista de uma história por vir). Entre todas as possibilidades da Sorbonne, era ele a combinação única que nos dava a força para suportar a nova ordem restabelecida. E Sartre nunca deixou de ser, não um modelo, um método ou um exemplo, mas um pouco de ar puro, uma corrente de ar que o acompanhava quando vinha do Flore, um intelectual que mudou singularmente a situação do intelectual. É estúpido perguntarmos se Sartre é o princípio ou o fim de alguma coisa. Como todas as coisas e pessoas criadoras, ele está no meio, cresce pelo meio."Aqueles que viram o filme que passou no Instituto Franco-Português e também, numa versão diferente, na Fundação Calouste Gulbenkian (com salas à cunha, o que prova que Sartre não está esquecido) terão visto sobretudo quartos despojados, como se Sartre fosse um monge com a Plêiade ao fundo. Quase não havia livros. Uma secretária simples, reduzida a uma tábua de madeira, um divã austero, uma forma reduzida e displicente de vestir. Sartre vai à rua e procura comprar jornais, seja qual for. Percebe-se que é um fanático da informação - e isto num tempo em que apenas havia rádio, e se aguardava por esse magia insólita que é a televisão. Estava longe de ser bonito ou sedutor. E contudo ele foi um desses homens rodeados de mulheres, a começar pela "sartreuse", como se poderia chamar marialvamente a Simone de Beauvoir. Esta tinha um pensamento duro, e uma escrita rude e sem recortes. Mas ela e Sartre constituíram um desses casais míticos do século XX. Cada um tinha amantes, e, no caso de Simone, havia homens e mulheres. É famoso o seu caso com o romancista americano Nelson Algren (com quem amainou o seu feminismo e teve mesmo atitudes de inesperada condescendência). Às vezes Sartre e Simone trocavam amantes. Mas tiveram um princípio que suscitou o espanto e admiração de várias gerações: defenderam uma relação fundada numa transparência absoluta. Porque não há em Sartre espaço para o inconsciente.Num dos seus textos, com dimensão autobiográfica, Sartre escreveu: "As nossas relações pareciam superiores em valor, em carácter essencial, a todas as que eu tinha tido com outros homens e outras mulheres, na mesma época. É claro que era machista, mas, quando encontrei Simone de Beauvoir, tive a impressão de ter as melhores relações que se pode ter com alguém. As relações mais completas. Não falo da vida sexual e da vida íntima. Falo também da conversa ou da discussão a propósito de uma decisão importante da vida."
posted by George Cassiel @ 1:28 da tarde  
2 Comments:
  • At 2:43 da tarde, Blogger FMPC said…

    O exterior de Sartre será o nosso "interior"?
    Será que a filosofia de Sartre pode considerar-se tão datada e comprometida na realidade que perde o carácter de permanência impermanente?
    Será que só nos podemos lembrar de Sartre como uma brisa envolvente que nos mergulha na existência?
    Será que toda a filosofia só pode começar pela 1ª pessoa do singular?

    FC

     
  • At 2:44 da tarde, Blogger FMPC said…

    O exterior de Sartre será o nosso "interior"?
    Será que a filosofia de Sartre pode considerar-se tão datada e comprometida na realidade que perde o carácter de permanência impermanente?
    Será que só nos podemos lembrar de Sartre como uma brisa envolvente que nos mergulha na existência?
    Será que toda a filosofia só pode começar pela 1ª pessoa do singular?

    FC

     
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"Este era un cuco que traballou durante trinta anos nun reloxo. Cando lle chegou a hora da xubilación, o cuco regresou ao bosque de onde partira. Farto de cantar as horas, as medias e os cuartos, no bosque unicamente cantaba unha vez ao ano: a primavera en punto." Carlos López, Minimaladas (Premio Merlín 2007)

«Dedico estas histórias aos camponeses que não abandonaram a terra, para encher os nossos olhos de flores na primavera» Tonino Guerra, Livro das Igrejas Abandonadas

 
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